Contar uma Estória - O caçador e o cão


CONTAR UMA ESTÓRIA
O caçador e o cão
Um caçador tinha um cão que o seguia por todo lado onde fosse e o ajudava em todas as actividades.
Um dia, o caçador foi caçar com o cão. A carne era muita. O caçador então pensou e disse:
- Se fosses uma pessoa, podias ajudar-me a carregar toda a carne dos animais que cacei.
O cão ouviu o pedido do seu dono e respondeu:
- Não me fales mal: a partir de hoje, tu passas a ouvir a linguagem de todos os animais: não fales a ninguém, se falares morrerás: pega em paus, amarra-os e coloca toda a carne. Vou conseguir levá-la até a casa.
Passado algum tempo, o cão envelheceu e morreu. Certo dia, a sogra do caçador estava a pilar bombó e os animais rodearam-na, chamando-se uns aos outros. A Cabra disse:
- Venham aqui, onde cai mais migalhas.
A Galinha disse:
- Vamos cercá-la, porque se ela se atrapalhar vai cair muito.
O caçador tinha o dom de escutar o pensamento dos animais nas vozes deles. Assim que ouviu a Cabra e a Galinha, pôs-se a rir. A sogra do caçador chateou-se e, por causa disso, pediu uma reunião. Ela disse que o genro a ofendera porque se riu na cara dela sem motivo.
A aldeia toda se reuniu no jango. O soba exigiu uma explicação ao caçador. Então, a exigência da sogra e da comunidade toda fez com que o caçador falasse por que razão sorriu. O caçador já não se lembrava do aviso do falecido cão quando lhe disse “a partir de hoje, tu passas a ouvir a linguagem de todos os animais: não fales a ninguém, se falares morrerás”. E cometeu o erro de desvendar o segredo, dizendo que se riu não para ofender a sogra dele, mas simplesmente porque escutou o que a Cabra e a Galinha tinham dito.
Mal acabou de falar, morreu, tal como tinha predito o seu fiel cão.
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Fonte: João António Miguel, 76 anos; com.: Catete, Icolo e Bengo, 2014.